ETNIA, GÊNERO E CLASSE NO TECER DA LITERATURA TESTEMUNHO

 

Márcia Maria de Jesus Pessanha - UFF

 

 

Nas últimas décadas, os estudos literários passaram a absorver, com mais frequência, outras áreas de cultura, antes preteridas pela ênfase dada, até então, à identificação das especificidades e da essência da literatura. Essa abertura possibilitou-nos incursões nos domínios fronteiriços do literário, na abordagem das obras Quarto de despejo da brasileira Carolina Maria de Jesus e Léonora, l’histoire enfouie de la Guadeloupe da antilhana Dany Bébel-Gisler.

De acordo, também, com alguns princípios da metodologia comparatista, num enfoque mais amplo, no âmbito dos estudos culturais comparados, não se privilegia mais o texto-fonte em detrimento de outros considerados menores. Assim, obras antes excluídas do cânone e sequer vistas como objeto de análise no espaço literário, por apresentarem sujeitos enunciadores da pronúncia de mundo dos oprimidos, com temáticas cotidianas, que se interligam no campo sócio-histórico-antropológico, hoje compõem o próprio círculo referencial de comparações entre elas, sem imitar os modelos clássicos. São por isso originais em sua inventividade e busca de autonomia. Constroem suas teias histórico-literárias com os fios do cotidiano.

. A omissão sistemática das camadas socialmente desfavorecidas, como sujeitos de seu próprio discurso, tem profundas implicações ideológicas, por isso o pobre, o negro e a mulher quase sempre foram vistos como inferiores..Estas últimas, principalmente, eram excluídas por serem consideradas, na visão masculina da significação, seres incapazes, movidos apenas pelas emoções. Nesta linha de pensamento, o crítico literário mantinha a convicção de que a literatura pertencia ao mundo das essências, incompatível com as banalidades do cotidiano feminino, pois a doxa tradicional postulava a separação do conhecimento em esferas de poder sobre outros seres humanos. Logo, se o plano do espírito não podia ter contato com a crueza e a vulgaridade, a canonização literária ocorria numa relação de estranhamento e de ruptura com o sentido mundano.

Por tudo isso, era tão difícil os relatos testemunhais, as experiências de grupos minoritários, as autobiografias, os diários e, em particular, os textos de autoria feminina terem acesso ao cânone e às estruturas de poder. Era preciso que se reformulassem os valores e se ampliasse a compreensão de mundo para incluir o registro do feminino na reconstrução de novas mensagens literárias. Daí os livros escritos por mulheres requererem, a princípio, um critério de análise construído sobre bases semióticas diferentes e o conseqüente afastamento de critérios estilísticos de consagração literária, que lhes negava a racionalidade e o direito de assumirem o seu discurso no ato da escritura.

Entretanto, na contemporaneidade, a atividade literária e acadêmica trouxe para o bojo de suas discussões três fenômenos de grande importância para a articulação de sua história recente: a) a explosão de uma literatura de raízes testemunhais, mediando entre o real e a representação, que aproveita as experiências de torturas e o eclodir das reivindicações dos direitos humanos; b) o discurso crítico feminista que sacudiu os baluartes – sempre masculinos- da avaliação literária oficial, promovendo uma nova forma de escritura, representativa de um cânone alternativo; c) a própria fenomenologia do testemunho. (JARA e TALENS, 1998, p.8)

Assim, no campo literário, um dos possíveis caminhos para se dar visibilidade autoral a Carolina Maria de Jesus e Dany Bébel-Gislér é o de focalizar os textos mencionados, sob o aspecto da literatura testemunho, em consonância com a visão da Nova História e da importância da cotidianidade no estudo das literaturas periféricas.

Cumpre ressaltar que a grande referência histórica sobre a literatura testemunho advém da decisão da Junta Editorial da Casa das Américas, em 1970, de conceder um prêmio literário à Biografia de un cimarrón do escritor cubano Miguel Barnet, embora a institucionalização do testemunho enquanto prática discursiva específica remonte à Revolução Cubana, na década de 60..

Assim, as obras que até então não correspondiam às rubricas genéricas vigentes, mas apresentavam depoimentos importantíssimos sobre as lutas emancipatórias, as opressões sofridas pelo povo em busca de liberdade, os protestos das minorias segregadas, etc., passam a compor o quadro temático da literatura testemunho.

Irrompe, então, a outra face da história, diferente da versão hegemônica européia dos colonizadores, com o discurso/denúncia dos “postos à margem”, dos colonizados, com sua linguagem aglutinadora de diversos narradores, heróis anônimos, informantes da memória coletiva. Entretanto, é preciso esclarecer que a história oficial não ignorava o outro, o diferente, o subalterno, mas não o incluía em seu espaço porque desejava traçar uma imagem do outro que não questionasse a centralidade do seu sujeito. Alguien dijo en una ocasión que la historia la hacen los pueblos, pero la escriben los señores.. (JARA e TALENS, 1998, p. 5)

 Dessa forma, não podemos definir o testemunho como uma biografia do outro, sob a ótica de um narrador externo, mas sim como a história desse outro, contada por ele, que assume o eu da enunciação e do enunciado. Daí seu caráter heterogêneo e sua aproximação com uma “ autobiografia despersonalizada” (ACHUGAR, 1992), visto que a subjetividade do eu autobiográfico representa e incorpora o coletivo de outras vozes silenciadas, em idênticas situações.

Por isso aproximamos as escritoras Carolina Maria de Jesus e Dany Bébel-Gisler enquanto paradigmas da mulher negra, de classe social inferior, mas que resistem ao patético quadro de sujeição feminina e relatam as atrocidades vivenciadas na favela e na “habitation”(1) através da escrita de seus livros. E, no caso específico da Carolina Maria de Jesus, o subjetivismo de seu diário se abre para acolher, denunciar e criticar o coletivo da mulher negra, pobre, semi-analfabeta, que vive nas favelas, sofrendo e aceitando discriminações de toda espécie. Mas ela, ao contrário, embora cate lixo para sobreviver e sustentar seus filhos, não se subjuga E há muitos anos grita, bem alto, em seus cadernos, gritos de todos os dias. Os seus gritos e os gritos dos outros, em diário. (JESUS, 1960, p.6)

E Carolina de Jesus sai do lixo, rompe as muralhas do silêncio e do descaso e denuncia os bastidores da fome e da miséria dos que vivem nas favelas, no momento em que o cenário político brasileiro, década de 50/60 apresentava-se nacionalista, progressista e modernizador. De um lado Brasília com suas luzes, cores, apogeu do poder, luxo, riqueza e de outro, o mundo sombrio, sem glórias, só com a tatuagem da fome estampada na cara. Na fome, o Brasil é cinza e o céu é amarelo. (Cf. MEIHY e LEVINE, 1994, p.89)

Temos assim as pistas que propiciam a inclusão de Quarto de despejo, no inventário das obras de testemunho, na contramão do movimento literário de elite, mas na corrente da cultura que se firma como a arte que mostra a face do povo, ouve seu clamor e dialoga com ele. E tudo começou, no presente caso, em 1958, quando Audálio Dantas foi à favela do Canindé, em São Paulo, para averiguar alguns fatos de interesse jornalístico e se deparou com Carolina de Jesus e seu diário manuscrito em folhas rústicas de papel: O livro que eu estou escrevendo as coisas da favela e a consequente resposta do jornalista: Eu prometo que tudo isto que você escreveu sairá num livro. (JESUS, 1960, p. 10)

Estabelecia-se assim a promessa contratual de parceria da literatura testemunho entre o intelectual solidário,o mediador, aquele que já aceito no mundo letrado sente a necessidade de entender o outro, o que está à margem da cidade letrada e tornar-se seu porta-voz. Verifica-se, portanto, em Quarto de despejo a caracterização dos elementos que constituem a fonte da literatura testemunho, que ao assumir modalidades próprias da narrativa e do discurso histórico, incorporou os termos “testemunho”, “testemunha” e “mediador”, visando a caracterizar a autenticidade de suas informações e denúncias.

Nota-(1)- Domínio latifundiário, compreendendo terras cultivadas, casa do proprietário, engenho, alojamento dos trabalhadores, “les cases à nègres”. Cada habitação é um pequeno estado com suas leis, sua justiça e sua prisão. (Cf. Bébel-Gisler, 1985,p.305)

Então, solidariamente, via poética da mediação do testemunho, o jornalista Audálio Dantas e Carolina de Jesus abrem as portas/páginas do quarto de despejo, revelando- nos a história escondida nos labirintos lamacentos da favela do Canindé, da mesma forma que a escritora antilhana Dany Bébel-Gisler, através do depoimento de uma camponesa, faz emergir a história submersa do povo guadalupenho na obra Léonora, l’histoire enfouie de la Guadeloupe.

Na perspectiva do testemunho, a função do mediador corresponde a uma missão, semelhante à dos Evangelistas, pois se estes se comprometiam com a divulgação das mensagens bíblicas, os intelectuais solidários se propõem a divulgar as palavras dos excluídos. La preservación de la voz del Outro es la preservación de la historia del Outro. (ACHUGAR, 1992, p.66)

Logo, cabe ao mediador ouvir atentamente o outro, em geral os relatos são orais, gravar o narrado, transcrever e preparar os textos para a publicação. Em todo este processo deve ser mantida a fidelidade ao texto original da testemunha.. Trata-se pois de uma estrutura híbrida de composição, onde dois narradores assumem a corporeidade da primeira pessoa do discurso narrativo escrito..

Observa-se também no testemunho que o prefácio é de fundamental importância para a compreensão e análise dos textos, já que é por seu intermédio que o letrado fornece explicações e justificativas, com relação à metodologia da coleta do material e preparação do mesmo. Pretende-se dessa forma tornar a publicação legível para os leitores estranhos ao mundo narrado.

 A escrita mediatizada da literatura testemunho, nestas circunstâncias, inverte os papéis e a vítima de massacre, de repúdio, utilizando os recursos da própria sociedade que a discrimina, visa a atingir o espaço do opressor, denunciando as agressões sócio-culturais sofridas e registrando as marcas de sua história, que desmonta o discurso dos senhores do poder Logo, se a testemunha não falar, por exemplo, a língua do colonizador, mas só se exprimir em seu dialeto, ela será compreendida apenas pelos de seu grupo étnico e sua voz não atingirá o território alheio, alvo de seu protesto.

Desse modo, Dany Bébel-Gisler ouve e grava o relato da camponesa Léonora e faz a transcrição em francês, língua oficial de Guadalupe, até hoje departamento da França. Embora o povo se expresse também em crioulo, transcrever o texto inteiro neste dialeto torná-lo-ia indecifrável e, por isso, como meio de resistência e para mostrar a coexistência no cotidiano das duas manifestações linguísticas, nos lances mais significativos da narrativa, a autora põe a personagem falando em crioulo e paralelamente traduz para o francês

O traço da oralidade, marcante nestes depoimentos, pode provocar maior interferência do mediador, no instante da transcrição, visto que as testemunhas dependem do fio condutor da memória, para não se perderem nas falhas do esquecimento. e há todo um clima emocional que entra em jogo no presente do rememorativo narrar. Já em Quarto de despejo, o processo mediático da literatura testemunho difere dos exemplos da maioria, visto que Carolina de Jesus entrega a Audálio Dantas as cópias manuscritas de seu livro. Foge, portanto, neste aspecto, de possíveis armadilhas do relato oral.

E como no texto de Léonora fica evidente que o público visado da autora não se limitava ao espaço da “habitation”, o de Carolina também não se restringia ao da favela, em sua grande parte composto de analfabetos e sem condições financeiras para consumir livros. Pretendia atingir o mundo letrado, o das pessoas com poderes e interesses na transformação social do país

Tanto Carolina quanto Léonora em seus redutos habitacionais se destacam das outras mulheres por assumirem atitudes de desafio, de coragem, ultrapassando fronteiras de imposições familiares, principalmente as de orientação patriarcal, falocêntrica. Ambas criticam com vigor a subserviência feminina, distinguindo-se a citação de Carolina:

                               

Tenho pavor destas mulheres da favela... Elas tem marido... E elas tem que mendigar e ainda apanham. Parece tambor...Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas. (JESUS, 1960, p.15 e 17)

 

        Delineia-se no exemplo acima a rebeldia da personagem frente à sujeição das mulheres, que aceitam resignadamente seu destino de fêmeas subjugadas, pois como sabemos a dominação masculina está de tal maneira enraizada em nosso cotidiano cultural, que encontramos dificuldades para combatê-la. Por isso, segundo o antropólogo e sociólogo francês Pierre Bourdieu ocorre a “eternização do arbitrário” porque as marcas do poder são duradouras e se inscrevem nos corpos dos oprimidos. (Cf. BOURDIEU, 1999)

          Entretanto, a lógica da dominação, não apenas com relação à dupla homem/mulher, mas também em outros pares dicotômicos, é exercida em nome de um princípio simbólico tanto pelo dominante quanto pelo dominado, através de uma língua, de um estilo de vida, de formas de pensar, falar e agir. Isto também se viabiliza por um emblema de estigma, por exemplo: a cor da pele, a classificação dos gêneros, as diferenças étnicas.

          A opressão existe porque o oprimido é seu hospedeiro, ou seja,o poder não pode ser exercido sem a colaboração dos que lhe são subordinados e que só se submetem a ele porque o consideram como força de dominação. Assim a consciência dominada só acontece com a aquiescência dos submissos.

          E mais uma vez reiteramos a importância dos textos em estudo, já que as autoras descrevem as situações vividas como realmente são e como poderiam ser, se os assujeitados revertessem o quadro das referências de dominação. O inconsciente androcêntrico sobrevive nos homens e mulheres mesmo nos dias atuais, o que religa a segregação feminina aos rituais de uma sociedade arcaica e patriarcal. O “habitus”é uma lei social incorporada e para retirar as tatuagens da opressão impressas nos corpos e mentes femininos é necessário um processo de “des-historicização”da cultura para que se possa construir um novo percurso da história da mulher na contemporaneidade.

          Assim a escrita feminina e,em especial, de matriz negra, associada à problemática social, sobretudo devido aos vestígios das causas escravagistas e coloniais estão muito interligadas e afloram nos textos em destaque, ilustrando um amálgama, às vezes indissociável dessas ligações. Torna-se portanto válida a citação:

 

Se gênero tanto quanto raça e classe é uma das categorias da diferença que estrutura nossa percepção, nossas leituras e nossas vidas, os valores e os sentidos que construímos do mundo, levantar a questão de gênero nas discussões sobre o cânone literário, critérios de valor estético e autoria feminina significa, em última análise, implodir as balizas epistemológicas do sistema de referência de nossa cultura e fazer emergir à tona as relações de cultura e da visão canônica da literatura com sistemas elitistas de distribuição de poder e estratégias de exclusão/opressão. (NAVARRO, 1995, p. 186)

 

 

 E a literatura testemunho favorece, sobremaneira, a emergência dos escritos no feminino pelos motivos expostos. E isto distingue cada vez mais o caráter reivindicador e testemunhal das obras estudadas e a performance de suas protagonistas. Além disso, mantendo o sustento dos filhos, sem a ajuda paterna, Carolina se aproxima daquele tipo de família a que os antropólogos chamariam de matrifocal, a mulher no centro, comum em sociedades que tiveram na sua formação e desenvolvimento o trabalho decisivo da mão de obra escrava. De forma semelhante, também Léonora assume em momentos sacrificiais a liderança da família, embora tivesse se casado.

Essas mulheres apesar do cotidiano árduo são ágeis e criativas, uma como sentinela dos favelados, registrando os tipos sociais, os costumes, enfim o cotidiano fervilhante da favela e outra como incentivadora das lutas dos camponeses e dos cortadores de cana-de-açúcar de Guadalupe, contra os senhores das plantações e donos de usinas, que exploravam os trabalhadores rurais. Legitima-se, portanto, nos livros citados, a intencionalidade da denúncia, o tom de depoimento e a preocupação com o relato sob o prisma do “efeito verdade”

Por tudo isso, o relato dessas duas heroínas vai muito além de um simplório e fortuito discurso a respeito de suas vidas íntimas e ascende à categoria de função exemplarizante de denúncia coletiva. E a literatura testemunho se nutre dessas vidas que brotam da cotidianidade dos humilhados e despossuídos, pois A vida cotidiana é parte do texto, as ruelas do real se encontram no texto e as ruelas do texto se encontram na realidade. (JARA e TALENS, 1998, p. 13)

E a leitura do cotidiano com suas várias faces oferece-nos a possibilidade do reencontro com as práticas cotidianas, sob a ótica da resistência criativa das artes de fazer, uso de táticas das pessoas comuns nascidas das circunstâncias, artes de dizer, de habitar e de nutrir.E se habitar é narrativizar como nos diz Michel de Certeau, visto que o ambiente doméstico reflete a personalidade de quem o ocupa, sua classe social, suas preferências, sua maneira de organizar, de dispor os móveis e utensílios e de conviver neste local, as duas protagonistas em pauta têm muito o que narrar.

Vida cujo espaço é a própria narrativa, Carolina tenta transformar o ambiente de sujeira onde vive. Catando lixo para não ter que mendigar, ela garante a sobrevivência dos seus e é capaz, ainda, de no papel recolhido, com perseverança e intuição poética, recriar o cotidiano, escrevendo sua história e a de outros em seu habitat na favela do Canindé. E, do lixo surge seu diário, que não é apenas um amontoado de palavras desconexas e ações repetitivas, mas a garantia de um espaço sobre o tempo e as coisas, a marca de sua criação, enquanto sujeito senhor.

Em Léonora, l’histoire enfouie de la Guadeloupe, as práticas cotidianas vivenciadas no domínio fundiário da “habitation”, descritas por Léonora ilustram também a reinvenção do agir cotidiano, do ritmo dos gestos habituais, principalmente ligados ao feminino: cozinhar, arrumar, costurar, conversar, habitar (Cf. CERTEAU, 1994, p. 48) e no caso mais específico de Léonora e Carolina também ler e escrever.

Em geral, o cotidiano não era registrado como motivo poético na consagrada literatura, que festeja os grandes heróis em feitos e eventos igualmente solenes, mas ao contrário, era priorizado na arte popular e agora na literatura testemunho com seus anti-heróis e/ou heróis anônimos que se perdem na multidão de passantes, ao longo dos anos, à margem da história.

E os textos citados, principalmente através das personagens femininas mostram que o mais fraco ao tirar partido das forças que lhe são estranhas inaugura maneiras de fazer do tipo tática, assegurando vitórias sobre o mais forte. E essas táticas demonstram também até que ponto a inteligência não se dissocia dos combates e dos prazeres cotidianos que articula. Por isso Carolina e Léonora se realizam quando lêem ou escrevem. E numa sociedade capitalista e competitiva ler e escrever são atividades fundamentais e, principalmente, no meio desfavorecido onde Carolina e Léonora viviam, a escrita se torna um princípio de hierarquização social ainda mais evidente..

O trabalho de escrever dá ao mesmo tempo à luz o produto e seu autor. Escrevendo, Carolina e Léonora se impuseram e gritaram bem forte suas dores, seus conflitos e suas esperanças de transformação social. Escrever é romper com o silêncio- silêncio que é opressão.(ORLANDI, 1988,p.54)

 

 

Referências Bibliográficas

 

BEBEL Gisler; Dany. Léonora, l’histoire enfouie de la Guadeloupe. Paris: Seghers, 1985.

BERVERLEY, Jonh e ACHUGAR, Hugo. La voz del otro: testimonio, subalternidad y verdade narrativa. Lima/Pittsburg. Latinoamericana Editores, 1992.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. tradução de Ephrain Ferreira Alves. Petrópolis, Vozes. 1994.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano 2 (Morar,cozinhar). Petrópolis; Vozes 1998

COSTA, Albertina de Oliveira & BRUSCHINI, Cristina (org.) Uma questão de gênero. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, Fundação Carlos Chagas, 1992

JARA, René e TALENTS, Jenaro. 1987. “Comparatismo y semiótica de la cultura” in Eutopias: Teorias/Historia/Discurso. Minneapolis/Valencia, Hiperión, VIII,2-3:5-17

JARA, René e VIDAL, Hernán (org.) Testemonio y literatura.Minneapolis. 1986

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MEIHY, José Carlos Sebe Bom e LEVINE, Robert M. Cinderela Negra. A Saga de Carolina Maria de Jesus. Ed. da Unicamp, 1994.

NAVARRO, Márcia Hoppe (org.) Rompendo o silêncio. Gênero e literatura na América Latina. Coleção Ensaios CPG Letras/ UFRGS,1995.

ORLANDI, Eni Puccinelli (1992). As formas do silêncio; no movimento dos sentidos. Campinas, Ed. da Unicamp.

SKLODOWSKA, Elzbieta. El Testemonio hispanoamericano. New York. Peter Lang, 1992.

SOTELO, Clara. El testimonio: una manera alternativa de narrar y hacer la historia. In: Texto e contexto.28, Bogotá, sep-dic. 1995.